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Com que direito me ensinaste a vida…..

Interessantes como as lembranças às vezes pipocam, trazendo de volta fatos, imagens, sensações e sentimentos tão distantes. 

Hoje acordei praticamente com essa poesia inteira na memória (ta lá embaixo) que tem tanto com meu momento.

E conheci esse soneto de uma forma muito pouco convencional

“Eu recém separada fui procurar emprego…nunca aceitei ser dependente de ninguém. Primeira chance: cargo de revisora de redação de jornal.

Bom…explico… no interior era assim… quem era alfabetizado.. virava *repórter* (catador de notícias..pra ser mais clara.).. quem tinha facilidade com palavras… discernimento…um QI de médio pra alto.. e conhecimento básico de onde se jogava vírgulas e crase…. (bom.. eu sabia… já esqueci tudo..rs)… virava revisora.

Lia todas as matérias… espalhava os *chapeuzinhos * das letras (entendam-se acentos)…distribuía as “ , ” .. os ” : “.. os ” ; ” e demais trocinhos que normalmente eram omitidos (tb pra que né…que coisa mais chata……rs).. e procurava entender a matéria com os olhos dos leitores.(Aprendi a duras penas decifrar intenções e fatos.)

Bom.. um belo dia (sempre tem esse *um belo dia*)… o repórter caiu fora e o diretor do jornal percebeu que seria mais econômico ter só UMA REPORTER que fizesse a própria revisão… ou seja,

                                                        EU

Me deu um livro enorme … de mais de 500 páginas pra ler em DOIS dias… tipo.. “COMO SER REPORTER EM 300 LIÇÕES”.. e me soltou na selva.

Os incidentes… micos…situações críticas…deixo subentendido…Inevitáveis para um *foca*…

Um dia chegou o momento de fazer a minha primeira cobertura …a minha primeira entrevista… o meu primeiro FURO DE REPORTAGEM… Tive acesso ao meu sonho de consumo.. *poder usar o gravador* (é gente… gra-va-dor… e com FITA CASSETE…..rs)

Matéria feita…tudo gravado…60 minutos de entrevistas e furo de reportagem..cidade em guerra civil e eu com tudo documentado.

Corri pra redação deixei o material e fui almoçar . Na volta…sentei à maquina.. (isso mesmo… máquina de escrever MANUAL… isso existiu)..ligo o gravador…

E…cadê a entrevista?

Cadê os depoimentos?

CADE TUDO?

Rodava a fita de um lado pro outro e nada…Até que descubro que… o sádico do meu chefe tinha incorporado Neruda ou qualquer outra coisa do gênero e declamado essa poesia em cima de minha matéria…..

 

 

Soneto 
Chico Buarque/1972

Por que me descobriste no abandono 
Com que tortura me arrancaste um beijo 
Por que me incendiaste de desejo 
Quando eu estava bem, morta de sono 

Com que mentira abriste meu segredo 
De que romance antigo me roubaste 
Com que raio de luz me iluminaste 
Quando eu estava bem, morta de medo 

Por que não me deixaste adormecida 
E me indicaste o mar com que navio 
E me deixaste só, com que saída 

Por que desceste ao meu porão sombrio 
Com que direito me ensinaste a vida 
Quando eu estava bem, morta de frio.

 

março 17, 2009 - Posted by | Uncategorized

1 Comentário »

  1. Olá!estava procurando a origem dessa frase “Diga-me do que te gabas que te direi do que careces”,e encontrei seu site.Confesso que fiquei perplexa por você ter ,além do mesmo nome que o meu, uma descrição que me identifiquei tanto…Parabéns pelo site chara!

    Comentário por Lorena | março 20, 2009


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